quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Há alguns anos atrás li essa que é uma das mais famosas obras de Kazuo Ishiguro em inglês, pois a versão brasileira estava completamente esgotada e, imediatamente, esse tornou-se sem sombra de dúvidas um dos meus livros prediletos. Assim, foi com enorme prazer que descobri que o autor ganhara esse ano o Prêmio Nobel de Literatura e, com igual alegria, que recebemos de cortesia da Editora Companhia das Letras essa edição espetacular de "Não me abandone jamais".

Se tivesse que escolher uma palavra para descrever esse livro, certamente, seria: Impressionante. Foi assim que fiquei quando, às três da manhã, terminei o livro pela primeira vez e não consegui dormir, impressionada e pensativa. Uma sensação que ele me causa até os dias de hoje, com cada lembrança e página relida.



Há vários anos assisti ao filme e fiquei bastante admirada com a trama, mas era o mesmo tipo de admiração que uma pessoa tem quando lê um livro profundo de forma superficial. Mas esse não é um livro para se ler de forma rasa, pois todo o brilhantismo se encontra nas sutilezas. Não me entenda mal, o filme é ótimo e a atuação de Keira Nightley, Andrew Garfield e especialmente Carey Mulligan são fidelíssimas, mas esse é um livro que tem mais a dizer do que a tela pode transmitir.

O livro é, curiosamente, frenquentemente classificado como ficção científica devido o seu pano de fundo, que não revelarei para evitar spoilers, mas para mim é mais um romance psicológico, um drama que foca brilhantemente nas emoções e conflitos dos personagens. O mais surpreendente não é, afinal, a grande revelação do livro — apesar de ela chocar a quem não tenha ainda visto o filme antes de ler, o que recomendo fortemente se você estiver considerando a ideia —, que o caracteriza como ficção científica, mas sim a riqueza de detalhes, da trama e do universo criado.

Essas bordas páginas prateadas e essa capa * - *

Apesar de aparentar ser um livro simples a princípio, esse vai tornando-se cada vez mais profunto e e não é um livro com a característica leitura fluída da maioria daqueles escritos em primeira pessoa, é pesado e algumas vezes até mesmo cansativo, devido à forma peculiar e completamente detalhista como é escrito, mas o resultado é algo lindo e consideravelmente melancólico. Através das memórias da protagonista, você mergulha na vida dos personagens, nem sempre de forma linear, em cada detalhe sutil que muitas vezes parecem irrelevantes, mas que vão aos poucos delineando de forma profunda a personalidade de cada um e nos possibilitando entender - mesmo que nos enfureçam - cada uma de suas decisões. Acompanhamos a vida de Kathy, Ruth e Tommy tão intensamente, da infância à vida adulta junto com todas as suas provações - as universais para a idade e as singulares apresentadas - , que chegar ao final do livro é como despedir-se com uma dor no peito de amigos que nos acompanharam por muitos anos.

É uma narrativa delicada e bela, mas também pesada e que levanta muitos questionamentos, tais como o porquê de as pessoas ferirem de forma gratuita àqueles que amam e colocarem sua felicidade a frente dos demais, ou mesmo a capacidade humana de negar-se a fazer os questionamentos evidentes quando isso de alguma forma lhes é cômodo. Entretanto, o real foco do livro é na compreensão daquilo que é de fato importante para nós, as coisas que precisamos fazer com o tempo que nos é dado, pois em algum momento aquilo que nos fizeram de errado já não tem importância, mas sim ter certeza de que as pessoas que amamos sabem que as amamos e juntas curamos feridas.

De forma envolvente e delicada, Ishiguro consegue abordar questões universais como a perda da inocência, amizade, amor, solidão, redenção, tempo perdido e a humanidade propriamente dita, de forma admirável, em um livro que é tão fascinante quanto triste. É o tipo de história que não te abandona tão cedo, permanece nos pensamentos por um longo período e tem a capacidade de te arrepiar, fazer sorrir e carregar lágrimas no olhos ao mesmo tempo. Absolutamente espetacular!


(...) Nunca me passou pela cabeça que nossas vidas, até então tão intimamente unidas, pudessem se desemaranhar e separar por tamanha bobagem.
Mas a verdade é que havia marés fortíssimas nos puxando cada qual para um lado e bastou aquela briguinha para completar a tarefa. Se tivéssemos entendido isso na época — quem sabe? —, talvez tivéssemos mantido um contato bem mais próximo entre nós. 


Nota 5/5 ★ - 



Talvez nenhum de nós realmente entendesse aquilo que vivemos, ou sentimos que tivemos tempo suficiente.




2 comentários:

  1. Oi Jack, tudo bem? Eu não sabia do filme, fiquei bem curiosa e tem um bom elenco, mas primeiro acho melhor ler o livro. Parece uma daquelas obras que precisam ser degustadas! Certeza que vou curtir!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hey, Mi.
      O filme tem uns 7 anos já, acho. Gostei bastante, mas o livro... ah o livro, esse eu amei!

      Bjs

      Excluir

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