A Mulher na Janela - A.J. Finn

A Mulher na Janela é uma obra que surpreende, indo além das expectativas para um thriller comum e nos permitindo experimentar muito de perto as fronteiras tênues entre realidade e ilusão, ao ponto em que, embora queiramos, não temos mais como confiar plenamente na sanidade da personagem principal. Apesar de que, ao clímax, o autor retorne a uma solução de certa forma comum aos livros de suspense, o resultado final é empolgante.

Em A Mulher na Janela, acompanhamos a narração em primeira pessoa de Anna Fox, uma psicóloga que vive solitária em uma casa de três andares em Nova York. Aparentemente, ela está separada de seu marido (Ed), embora converse diariamente com ele e com a sua filha (Olívia), que se encontram em outra cidade. O motivo da separação não é comentado, porém há a impressão de que o casamento não terminou de fato, e de que Anna está recolhida na casa, buscando se recuperar, para que esteja pronta ao reencontro com a família.


Anna simplesmente não sai de casa há dez meses. Ela sofre de agorafobia, uma doença em que a pessoa evita circular em ambientes ou situações específicas, pelo receio de que, caso se encontre em uma situação em que se veja em risco, não será capaz de encontrar um refúgio, um socorro. A agorafobia está diretamente associada ao transtorno de pânico. O simples pensamento de que algo terrível ocorra em situações fora de seu conforto provoca o isolamento da pessoa que, em casos extremos, não se sente segura nem mesmo sozinha em sua própria casa, necessitando da companhia constante de outras pessoas. 

Com grande destreza, o autor nos apresenta gradativamente a rotina de Anna, que consiste basicamente em observar os seus vizinhos pelas janelas da casa (bem como conhecer suas vidas em detalhes, por meio de pesquisas na internet), auxiliar virtualmente pessoas em situação similar à sua, conversar eventualmente com o lacônico David (que vive de aluguel no porão da casa), receber a sua fisioterapeuta e o seu psiquiatra em dias específicos da semana, além de tomar doses cada vez mais frequentes de álcool, misturadas aos diversos remédios com que se trata da doença. 

Soma-se a isso o seu hábito de assistir filmes antigos, em preto e branco, especialmente aqueles considerados “noir”, ou seja, as histórias com personagens enigmáticos e crimes aparentemente sem solução, em um cruzamento explícito entre o cinema e o mundo em que Anna estará prestes a se deparar. O autor não esconde a sua inspiração nesses filmes, especialmente no clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock (na foto a seguir, Grace Kelly e James Stewart, os icônicos atores do filme).


Pelo que observamos da personagem, ela está longe de uma cura e, ironicamente, busca ajudar pessoas na mesma situação, por um site. Ao contrário, Anna entra em um círculo vicioso de uso cada mais frequente do álcool (garrafas e garrafas de vinho), sem perceber que está se sabotando, sempre encontrando justificativas para beber mais. A principal recomendação de seu psiquiatra é de que não combine os remédios com bebidas, exatamente o que Anna não hesita em fazer. É angustiante acompanhar como a agorafobia afeta a vida de Anna, e conseguimos entender o seu pavor extremo de sair de casa, ou mesmo de abrir uma única janela. E aqui, adentrando nessa espiral destrutiva, é que Anna acredita testemunhar um crime, em uma casa do outro lado da rua, da recém-chegada família Russell (o casal Jane e Alistair, e o seu filho, Ethan).

Daqui em diante, vemos as tentativas desesperadas de Anna em provar à polícia e a todos ao seu redor de que presenciou de fato um assassinato. A personagem demonstra lucidez e argumenta de forma incisiva, porém não há provas suficientes, sendo que a própria polícia lhe afirma que a “vítima” está viva. Até mesmo Ethan, filho da suposta mãe assassinada e que se sensibiliza com a condição de Anna, rebate os seus argumentos. O autor consegue nos fazer transitar entre a crença e a descrença, e ficamos à deriva, desejando por um lado acreditar que a personagem tem razão e de que há algum ocultamento individual ou coletivo do crime, e por outro não nos livrando da dúvida de o quão consciente Anna está, considerando o seu vício em álcool e os efeitos colaterais dessa combinação com as medicações. 

Ela pode ter de fato presenciado algo, porém tudo pode não passar de uma alucinação, e essa indefinição é um dos pontos altos na leitura, elevando o suspense. Não é possível nem ao menos ter a certeza de que as pessoas ao redor de Anna existem de fato. O que parece inicialmente uma história sobre um provável assassinato testemunhado em uma janela, termina por enveredar na observação do processo autodestrutivo de uma mulher, atormentada por um passado obscuro, do qual busca fugir de todas as formas. 

E, abordando o passado, o autor nos mostra pouco a pouco as peças que explicam o motivo do isolamento de Anna. Essas passagens são, ao início, bastante curtas, porém vão tomando mais espaço no livro, à medida em que os acontecimentos se aceleram, até o ápice da circunstância dramática vivida por Anna. Uma situação extrema, terrível, contada com maestria por A.J. Finn, em um dos momentos mais emocionantes e viscerais do livro.

A partir da revelação da dor sofrida pela personagem e da tomada de consciência da própria Anna quanto ao que de fato vivenciou, há uma reviravolta muito bem construída pelo autor. Agora a atenção está voltada para sabermos se Anna terá forças para superar a traumatizante realidade em que se encontra, e a vemos em sua luta para não retornar ao círculo vicioso. Esse é o ponto em que o leitor mais torce para que a protagonista vença a situação, e mais sofre ao vê-la flertar com a retomada sutil e explosiva dos mesmos hábitos.


Porém, ao invés de seguir nessa direção e construir um fechamento inovador, invertendo o foco do crime para a jornada desesperada da personagem, o autor decide retornar ao foco anterior o que, se por um lado esclarece definitivamente todas as pontas deixadas ao longo da obra, por outro frustra a expectativa de que caminhássemos para um final mais profundo sobre os medos interiores do ser humano. De qualquer forma, ainda assim o livro tem o seu próprio charme e consegue se destacar no universo das obras de suspense. 

Ao final da leitura, a sensação é de que o autor atingiu o objetivo de nos mergulhar no universo particular de Anna e de tantas outras pessoas no planeta, construindo uma personagem com a qual nos identificamos, pela qual tememos por sua vida e, ao mesmo tempo, torcemos para que quebre todas as barreiras que a prendem em seu casulo psicológico. 

A obra será adaptada para o cinema, com Amy Adams no papel principal. Um roteiro de alto nível e a escolha dessa fantástica atriz trazem muitas esperanças de que tenhamos uma adaptação de grande impacto nas telas.

Mais uma Leçon de francês hoje e, à noite, Les diaboliques. Um marido cafajeste, uma mulher frágil, uma amante, um assassinato, um cadáver desaparecido. Existe coisa melhor do que um cadáver desaparecido?

Nota: 4/5★
Livro no Skoob: A Mulher na Janela

Um comentário:

  1. Gostei muito desse livro quando o li para um clube de leitura do qual participo. Parabéns pela resenha.

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